A Morada Caiçara em Ilhabela

A região do litoral paulista apresenta uma costa bastante recortada, escarpas de grande altitude (média de 600m), diversas ilhas em meio ao maior remanescente de Mata Atlântica. A região, que anteriormente a colonização era ocupada por índios, passou a ser ocupada por colonos portugueses e escravos em meados do século XVII, passando a produzir diversos alimentos, principalmente açúcar, café e aguardente. Constituindo numerosas fazendas em toda a região, ocupando as baías que apresentavam as melhores condições de embarque e desembarque para as embarcações. Os portugueses e escravos originários do Norte da África, trouxeram diversas técnicas de construção com terra crua, sendo a mais difundida a taipa-de-mão.

As construções destas fazendas eram feitas de pedras assentadas com terra areia e óleo de baleia, paredes de taipa-de-mão e taipa-de-pilão. As casas dos trabalhadores e escravos eram de taipa-de-mão, tornando a técnica mais difundida na região. Em alguns casos olarias eram construídas nas proximidades.

A região foi muito prospera até meados do século XX, quando houve a mudança mos meios de transporte para o escoamento das mercadorias. Neste contexto a região o Litoral Norte do Estado de São Paulo e Sul do Rio de Janeiro ficaram no esquecimento. As fazendas que não eram atendidas por estradas foram abandonadas, por não poderem mais competir com o preço das mercadorias atendidas pelas estradas. Ficando ali somente seus antigos trabalhadores isolados dos processos de desenvolvimento por quase um século, preservando tais penínsulas, baías e ilhas.

[1] Comunidade Tradicional, formada por caiçaras. Têm como definição na Lei Estadual do Gerenciamento Costeiro (lei 49.215/2004): «Grupos humanos diferenciados, fixados numa determinada região, historicamente reproduzindo seu modo de vida em estreita dependência do meio natural para subsistência.»

Com o passar dos últimos dois séculos estes grupos passaram a desenvolver uma estreita relação com o meio-ambiente, vivendo somente dos recursos do mar e da terra, reconhecidos atualmente como Comunidades Tradicionais [1].

Nas últimas três décadas a pressão do turismo começou a avançar nestas regiões antes isoladas, devido a sua beleza paisagística e qualidade ambiental. Seu modo de vida, sua tecnologia empírica vêem sendo substituídas por novas técnicas. O mais evidente é na moradia, baseada anteriormente na terra crua, substituída por blocos de cimento e cerâmica, telhas de amianto.

Panorama Geral

No arquipélago de Ilhabela vivem 15 comunidades tradicionais, (PIRRÓ, Mariana, 2003) em um território 347 Km², com 155 km de costa, 28 km ocupada pela malha urbana e abrigada pelo Canal de São Sebastião. Ainda no Litoral Sudeste brasileiro existem comunidades vivendo em Ubatuba/SP e Sul de Paraty/RJ. Atualmente e mais precisamente nos últimos 20 anos essas comunidades sofrem com pressão turística sem planejamento e ordenamento do território.

As vilas caiçaras têm uma organização similar e se caracterizam segundo, PIRRÓ, 2005.PIRRÓ, Vilas Caiçaras in: NOGARA,Subsídios para o Plano de Manejo do Parque Estadual de Ilhabela: Inserção das Comunidades Caiçaras. «as casas distribuem-se de maneira aleatória no terreno, são separadas por quintais agroflorestais, compostos por árvores frutíferas e canteiros; são cortadas por trilhas e caminhos que interligam todas as residências e permitem o livre acesso de todos para todos os lugares. Na maioria das vilas não há delimitação dos lotes. Conforme a extensão territorial da área ocupada, a distância entre as casas varia havendo comunidades onde as casas são bem próximas umas das outras e outras onde as casas se encontram mais afastadas».

[2] Levantamento realizado por Ligia Perissinoto e Alain Briatte Mantchev

Em levantamento [2] realizado em cinco destas comunidades notou-se um número considerável de casas de alvenaria, porém, na comunidade mais isolada, da Ilha de Vitória, onde os recursos são mais difíceis, as casas em taipa-de-mão predominam, totalizando 75%. Demonstrando a terra como um material versátil e de grande importância.

A mistura de técnicas de construção revela uma desarmonia na paisagem das vilas caiçaras trazendo impactos quando estas casas necessitam de reparos, o continuo aumento no uso da alvenaria de tijolos cerâmicos e blocos de cimento, o uso de telhas amianto entre outros materiais industrializados de baixa qualidade causam um acumulo de entulhos, visto que a coleta de resíduos nestes locais é precária.

A construção da casa caiçara

As fases de construção são as seguintes:

  • Construção do alicerce e baldrame;
  • Levantamento da estrutura de madeira;
  • Construção do telhado;
  • Construção da estrutura secundária que dá suporte as portas, janelas e a parede de taipa-de-mão;
  • Construção da trama da parede de taipa-de-mão, feita de pequenas varas de madeira e bambu, 3 a 5 centímetros de diâmetro, amarradas com cipó;
  • Devido às chuvas a fase de barreamento é uma das últimas finalizando a construção, feita após o termino da cobertura;
  • A moldagem da parede vira um dia de festa entre amigos onde todos se ajudam. A terra usada é cortada próximo a casa e misturada com água e não recebe nenhum tipo de estabilização, diferente de outras regiões do país. Após o preparo da primeira masseira se formam as duplas, um dá o suporte e o segundo preenche a trama.

Barreamento de casa caiçara | Praia Vermelha – Ilhabela/SP | Fevereiro de 1999

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Uma pequena casa de aproximadamente 40 m² pode ser preenchida com a técnica de taipa-de-mão em até quatro horas com a ajuda de 10 pessoas. Com a casa praticamente pronta o futuro morador promove uma festa como forma de agradecimento aos ajudantes. A “barreada” é um acontecimento da cultura caiçara que mostra o aspecto social da técnica.

Passadas duas a três semanas a parede seca e apresenta as primeiras rachaduras, é quando é feito o revestimento com cimento e areia e a pintura com cal. Segundo a experiência dos construtores há casas construídas com estas técnicas que vem durando mais de 40 anos construídas. Mesmo com o revestimento de cimento e areia a parede continua com um bom desempenho climático.

Além das inúmeras vantagens de construção com terra crua como: a grande disponibilidade do material, a baixa exigência energética, a fácil assimilação da mão-de-obra, entre outras; esta a reciclagem do material que volta para a natureza com um mínimo impacto. Diferente dos blocos de cimento e cerâmica que geram enormes quantidades de entulho.

Alguns caiçaras patriarcas das comunidades possuem grande apreço por suas casas de terra e salientam as vantagens listadas acima, principalmente o bom desempenho climático nas diferentes estações do ano. E dizem com muita propriedade que a taipa-de-mão é a que mais se integra ao meio ambiente em que vivem.

A vila e o modo de habitar

A moradia caiçara possui aspectos distintos no modo de habitar moldados pelo seu ambiente e cultura. O clima chuvoso, o sol escaldante, a proximidade com o mar, a pesca, o cultivo da terra, as arvores frutíferas que cercam as casas. As outras edificações que compõe a vila: a escola, a igreja, a venda, a casa de farinha e o rancho (abrigo das embarcações) são implantados de maneira orgânica adequando-se aos elementos da natureza: rios, areias, pedreiras, morros e vegetação.

[3] Sertão: áreas mais afastadas da vila, fixada no morros.

A estrutura da vila mostra um aspecto inteligente de ocupação, ignorado pelos padrões atuais, condomínios horizontais e loteamentos urbanos. Organizado da seguinte maneira segundo: DUARTE PAES, Maria Tereza. «A praia era o território onde se tecia a trama das relações sociais, os pontos de articulação com o mundo exterior, e os territórios de convivência entre as famílias caiçaras. Os territórios do sertão [3] e da praia se contrapunham. Na praia se localizavam a escola, a igreja, a venda e as moradias. O sertão era o lugar do trabalho, em que se encontravam as roças, os bananais, e as regiões especiais da floresta (locais de caça, de coleta de madeira e ervas, etc.).»

Como a vila caiçara se configura de maneira interligada e com a ausência de cercas, a casa tem uma forte ligação com o exterior, sendo esta transição uma característica marcante: varandas e áreas de serviço desconectadas das casas. São organizadas de maneira simples, por uma sala que leva aos quartos e uma cozinha que de maneira geral é o maior cômodo da casa. Ali esta o tradicional fogão a lenha quase sempre acesa e pronta para o preparo de café e do feijão, é sempre comum encontrar cachos de bananas pendurados a disposição da família e amigos.

Nos meses de calor, de outubro a abril, não chove e a permanência no lado de fora da casa é comum, principalmente próximo à cozinha. As arvores em volta garantem uma temperatura agradável.

Nos meses de frio, maio, junho e agosto, o fogão a lenha aquece da casa, e em algumas casas, a energia é usada também para aquecer a água do banho.

Outro fator característico é o aumento da edificação conforme o crescimento da família. Feita sem a pretensão de expansão as intervenções comprometem a qualidade da casa, pois muitas vezes técnicas diferentes são conciliadas: taipa-de-mão x alvenaria, coberturas com diferentes tipos de telha; aumentando os vazamentos e frestas  que abrigam insetos, pássaros, entre outros.

O caiçara devido à dificuldade de obtenção de recursos industriais desenvolveu uma habilidade para o reaproveitamento de materiais. Muitas telhas usadas são da época das fazendas de engenho, madeiras provenientes de antigos barcos, entre outras.

Dentre as atividades e soluções que criam a identidade caiçara, reconhecida por muitos, pela culinária, danças, festas, lendas e histórias, está a arquitetura caiçara que retrata a moradia e o modo de habitar.

O caiçara e a técnica

A cultura caiçara não existiria sem o mar, nela apresentam-se aspectos fortes de sua técnica, sua renda financeira, de subsistência, mitos e rituais.

Suas embarcações dariam um capitulo a parte. As canoas são o retrato do povo, o elemento que mais se associa à imagem do caiçara. Empregam tempo e dinheiro em sua manutenção e confecção sempre pintadas inspiram confiança e bravura. Os mestres canoeiros são pessoas de importância que passam a técnica de geração para geração.

Morando em lugares distantes as canoas são equipamentos essenciais, sendo transporte e equipamento de pesca. Daí a necessidade de ser equipamentos precisos e de confiança.

Outras habilidades também foram desenvolvidas tais como a confecção de artesanato, incluindo os equipamentos para a pesca e o desenvolvimento da agricultura.

Tal empenho não foi dado a moradia pela a maioria, morando em lugares de clima ameno protegidos do vento e da chuva pela mata que os cerca, com água abundante e espaço de sobra a casa foi relegada a segundo plano.

Os novos materiais de construção parecem ser a solução cômoda, mas fazendo-se uma analise um pouco mais apurada verifica-se que a habilidade no artesanato e na construção de canoas poderia ser transferida para as moradias, construindo uma nova tipologia que serviria de referencia ao litoral brasileiro.

As comunidades tradicionais possuem recursos financeiros limitados, porém estão inseridas em um ambiente repleto de beleza e abundancia de recursos naturais provenientes do mar e da terra.

Podendo ser reconhecidos como os guardiões da terra, uma vez que conhecem as dinâmicas da natureza e estão intrinsecamente ligados a ela dependendo de seus recursos para sobreviverem. O fortalecimento e respeito a sua cultura é importante para o desenvolvimento durável deste meio ambiente tão belo e ameaçado.

Diversas ações são necessárias e algumas já foram iniciadas, como a criação de leis que restringem a construção e reconhecem a importância do caiçara na identidade da região, mencionam aspectos importantes como a taipa-de-mão, o sistema de trilhas a ausência de cercas a relação com a floresta entre outras.

Poderíamos começar propondo com a reformulação da moradia caiçara, que somado a uma política de regularização fundiária firmaria a comunidade na terra.

Equacionar as questões culturais e práticas antigas com novas tecnologias é necessário para uma ação eficiente. Assim como a construção de casas que aproveitem os conhecimentos existentes agregando elementos de sua cultura, muito pode nos ensinar a construir casas de baixo custo, belas, agradáveis cheias de arte e cultura, contrapondo-se a produção de casas populares no Brasil e resgatando dignidade do povo.

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Qual morada de terra para o amanhã em Ilhabela ?

Quel habitat en terre pour demain sur Ilhabela, Brésil ?

Dissertação Alain Briatte Mantchev. CRAterre/ENSAG/França DSA 2008/2010

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Este trabalho é somente para uso privado de atividades de pesquisa e ensino. Não é autorizada sua reprodução para quaisquer fins lucrativos. Esta reserva de direitos abrange a todos os dados do documento bem como seu conteúdo. Na utilização ou citação de partes do documento é obrigatório mencionar nome da pessoa autora do trabalho.

Resumo: As áreas afastadas dos centros urbanos na região da Serra do Mar apresentam-se em ótimo estado de conservação ambiental e são lugares de redutos caiçaras. A expansão das cidades, a especulação imobiliária e o turismo sem planejamento ameaçam estes locais de paisagem exuberante.

As unidades de conservação e as diversas leis de proteção ambiental têm um papel importante na preservação, porém, atualmente, a discussão de ocupação nestes locais acontece essencialmente na escala do planejamento. A legislação atual indica as diretrizes de melhoramento das habitações e da ocupação valorizando o saber caiçara, onde a arquitetura de terra é presente na cultura construtiva.

A evolução da arquitetura no decorrer da história está relacionada com a paisagem e os materiais locais desenvolvendo soluções adaptadas ao clima e a cultura. A colonização portuguesa impôs uma arquitetura européia que com o passar dos séculos produziu soluções adaptadas ao brasileiro, onde a arquitetura caiçara faz parte deste processo evolutivo, e deve ser incentivada e melhorada dentro de um processo de continuum cultural e de pesquisas de tecnologias apropriadas.

O trabalho procura compreender como a arquitetura de terra caiçara responde à um dos climas mais úmidos e chuvosos do mundo. Sua relação com a paisagem é abordada no eixo geologia – arquitetura e são apresentados dados que argumentam como a arquitetura de terra é adaptada ao contexto das áreas protegidas e aos locais de difícil acesso, discutindo também a qualidade arquitetural e qualidade estética, além do papel social que pode desempenhar.

A pesquisa é concentrada no contexto insular do arquipélago de Ilhabela onde são reunidos dados
humanos e técnicos a fim de alimentar a reflexão sobre qual arquitetura deve ser produzida no
contexto da Mata Atlântica e da Serra do Mar.

            Memoire CRAterre – Alain Briatte Mantchev | francês

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